Nos últimos dias, o influenciador Felca (Felipe Bressanim) trouxe à tona um tema delicado e urgente: a adultização de crianças nas redes sociais. Seu vídeo viral escancarou situações em que meninas e meninos são expostos a comportamentos, discursos e responsabilidades que não condizem com sua fase de desenvolvimento. A repercussão foi imediata e milhares de pessoas começaram a discutir o assunto e até autoridades já se mobilizam.
Mas, por trás da polêmica, existe uma questão essencial: quais são as consequências de transformar a infância em palco de expectativas adultas?
O que é adultização, afinal?
Quando falamos em adultização, nos referimos a situações em que crianças são incentivadas ou mesmo pressionadas, a assumir posturas, responsabilidades ou aparências próprias da vida adulta. Isso pode se manifestar de diferentes formas:
- Crianças reproduzindo comportamentos sexualizados em vídeos;
- Exposição precoce a discursos sobre produtividade, dinheiro e sucesso;
- Participação em conteúdos ou trabalhos que as colocam como “mini adultos” diante das câmeras.
É importante entender que a infância não é um ensaio da vida adulta. É um período fundamental de construção da identidade, da autoestima e das habilidades socioemocionais. Pular etapas pode deixar marcas profundas.
O impacto no cérebro e nas emoções
Do ponto de vista neurocientífico, existe uma questão-chave: o cérebro infantil ainda está em processo intenso de desenvolvimento. Áreas ligadas à regulação emocional e ao pensamento crítico, como o córtex pré-frontal, só amadurecem por volta dos 25 anos. Já regiões ligadas à emoção e ao prazer, como o sistema límbico, são muito mais ativas desde cedo.
Isso significa que, ao expor uma criança a situações adultas, principalmente de caráter sexualizado ou de forte pressão social, há um descompasso neurológico: ela sente intensamente, mas ainda não possui ferramentas cognitivas para lidar com isso.
Estudos em psicologia do desenvolvimento já mostram que experiências de adultização precoce podem estar associadas a maior risco de ansiedade, depressão e dificuldades de relacionamento ao longo da vida.
A visão da TCC: como a mente interpreta essa pressão
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), trabalhamos com a ideia de que nossos pensamentos influenciam emoções e comportamentos. Uma criança exposta à adultização pode desenvolver crenças distorcidas, como:
- “Preciso parecer madura para ser aceita.”
- “Meu corpo é o que mais importa.”
- “Tenho que agradar o público para ser valorizada.”
Essas crenças, mesmo que não sejam conscientes, moldam a forma como a criança se enxerga e se comporta. Com o tempo, podem gerar ansiedade, baixa autoestima e até dificuldades em estabelecer limites saudáveis.
No consultório, o trabalho passa por ajudar a criança (e a família) a reestruturar essas crenças, fortalecer habilidades sociais, promover autoestima e devolver à infância o espaço de brincar, errar e descobrir o mundo no seu próprio tempo.
Por que a denúncia de Felca importa
O vídeo de Felca gerou tanta repercussão porque escancarou algo que, muitas vezes, estava diante dos nossos olhos, mas normalizado. E quando alguém consegue mobilizar milhões de pessoas em torno de um tema, abre-se uma oportunidade para refletirmos coletivamente.
Não se trata de demonizar as redes sociais ou culpar exclusivamente as famílias. A questão é mais ampla: envolve educação digital, responsabilidade das plataformas, supervisão familiar e políticas públicas que protejam a infância.
O que podemos fazer como sociedade e como famílias
- Proteção digital: crianças não devem ser colocadas no papel de criadoras de conteúdo ou expostas em redes sociais. Cabe aos adultos zelar para que a infância seja vivida fora desse ambiente de pressão e exposição.
- Valorização do brincar: atividades lúdicas, criativas e desconectadas são essenciais para o desenvolvimento saudável.
- Diálogo aberto: conversar sobre internet, corpo, autoestima e pressão social deve ser rotina em casa.
- Apoio psicológico quando necessário: em casos em que a exposição já trouxe sofrimento, a psicoterapia pode ser um espaço seguro de ressignificação.
Preservem a infância das crianças
A denúncia de Felca nos convida a um olhar profundo: a infância precisa ser protegida. Não apenas contra situações de risco explícito, mas também contra sutis formas de pressão que roubam etapas importantes do desenvolvimento.
Como psicóloga, acredito que a melhor forma de combater a adultização é resgatar o valor da infância: um tempo de aprender aos poucos, errar sem medo, brincar sem pressa e crescer com segurança. Preservar a infância é mais do que uma responsabilidade social, é um ato de amor e cuidado que reverbera por toda a vida.